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De caloira a futura doutora

Quando tomei a decisão de ficar a estudar em Coimbra, cidade que me viu nascer e crescer, nunca achei que isso fosse ter um impacto assim tão grande na minha vida. Achei que ia ficar em casa, debaixo da asa dos pais, numa cidade que não me era de todo estranha, em que eu conhecia "os cantos à casa" e onde me ia sentir dentro da minha zona de conforto. Achei que ia continuar a ver Coimbra da mesma forma.

Mas enganei-me. Enganei-me tanto.

Entrei na minha primeira opção em Coimbra e não sabia o que me esperava. Apesar de ter entrado conhecendo uma pessoa, senti que tinha caido meio de paraquedas. Estava num ambiente completamente novo, onde tudo era estranho e uma completa novidade. Não conhecia aquelas caras e estava prestes a começar a trilhar o meu futuro. Entrei a medo, confesso, mas tinha expetativas altas. Queria que o meu ano fosse bom, que eu me sentisse feliz e que gostasse do curso. Contudo, não esperava que o meu 1ºano no curso de Fisioterapia, o meu ano de caloira, fosse o melhor ano da minha vida. 

Entrei na praxe de mente aberta e com a certeza de que era algo que queria experimentar. Não sabia exatamente o que era a praxe e onde me estava a meter, mas sabia que queria descobrir. E fui descobrindo ao longo de todos estes meses, pouco a pouco. Mentiria se dissesse que nunca pensei em desistir. Porque pensei. Não sei exatamente por que pensei nisso - talvez por saber que a praxe significava que eu precisava de arriscar, de sair da minha zona de conforto e isso me assustava -, mas sei que a melhor decisão que tomei foi nunca desistir. Permaneci, dei o meu melhor e tentei sempre deixar tudo de mim na praxe. Sabia que do outro lado, de capas negras, estavam pessoas que davam o melhor de si para nos proporcionar bons momentos e, portanto, cabia-me a mim (a nós) retribuir esse empenho. Foi sempre aquilo que tentei fazer e, pensando bem, acho que não falhei muito. 

A praxe ajudou-me a crescer. Ajudou a que eu me desinibisse um pouco mais, a que fosse mais criativa e deixasse de pensar tanto nalgumas situações. Sinto que hoje sou uma pessoa que conhece melhor os seus limites, que sabe que faz bem sair da sua zona de conforto e que, acima de tudo, tem os valores da praxe bem presentes. E desengane-se quem acha que a praxe tem a ver com hierarquias e superioridades. Não, a praxe é uma lição de vida. No resto da nossa vida, vamos sempre cruzar-nos com pessoas que vão estar acima de nós, que nos vão dar ordens, e nós temos de saber acatá-las nunca deixando que nos pisem ou que façam algo que não devem. A praxe ensinou-me também como é importante trabalharmos em grupo, porque caloiro é um. Hoje, sinto-me muito agradecida à praxe por tudo o que me deu - as pessoas, as memórias, as lições. 

Depois de trajar pela primeira vez e de uma noite emotiva (que foi o culminar de uma semana igualmente emotiva), faltam-me as palavras para expressar os meus sentimentos e a minha gratidão para com este curso, estas pessoas. Ver-nos a todos, caloiros, trajados; ver só preto e branco à minha volta; sentir a gratidão e o orgulho dos nossos doutores; sentir a nossa felicidade por termos chegado até aqui, juntos; ver as lágrimas nos olhos; ouvir as palavras de carinho, amizade, orgulho. Foi uma noite que jamais vou esquecer. Vou guardar cada momento na minha memória e no meu coração, para relembrar sempre.





Percebo agora que Coimbra é hoje muito mais para mim do que era quando entrei no curso. É muito mais do que a cidade que me viu nascer e crescer. É a cidade que viu uma caloira perdida transformar-se numa futura doutora cheia de orgulho e força de vontade, que quer continuar a criar memórias incríveis para levar para o futuro e transmitir às próximas gerações tudo o que lhe foi transmitido a ela. 

Não sei se sorte, ou outra explicação, mas amo esta cidade e a sua tradição.

Comentários

  1. Cheguei ao fim com lágrimas nos olhos. Tu no teu primeiro ano, a trajar pela primeira vez e eu no último, a trajar pela última vez. Coimbra viu-me crescer. Foi aqui que cometi das maiores loucuras da minha vida. Foi em Coimbra que chorei baba e ranho a ouvir fado. Coimbra acolheu-me de uma maneira que nunca vou esquecer. Coimbra é a cidade que vai ficar sempre no meu coração. Coimbra guarda os meus maiores segredos e só de pensar que estou a um mês de ir embora, fico com aperto no coração! Aproveita Coimbra. Ela tem muito para oferecer. Diverte-te e aproveita o melhor que a cidade tem para dar!

    Beijinhos
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    Respostas
    1. Que Coimbra me dê tanto como me deu a ti e que a tua vida futura te dê ainda mais coisas boas. Muito sucesso e muitas felicidades, Melanie!
      Um beijinho grande e um abraço virtual bem apertado.

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